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Mostrando postagens de dezembro, 2022

A Gota

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       É quase impossível relembrar os tempos da universidade sem que venha junto à memória as noites de chuva que nos isolavam no ambiente acadêmico. O prédio era razoavelmente afastado da cidade, além do que, naquele tempo dos humilhados esperançosos por exaltação, não havia ônibus e poucos alunos tinham uma condução decente para que pudessem chegar em casa sem tomar uma boa ducha de água de nuvem. O jeito era esperar o mal tempo passar.        Decidi sentar na varanda, sentindo os respingos trazidos pelo vento da tempestade. Coloquei a mochila sobre as pernas enquanto dirigia minha atenção para uma pequena gotícula de água que repousava sobre as folhas de uma orquídea violeta. Segura em um vaso, havia acumulado aquele pequeno líquido durante um momento onde a fúria da tormenta ultrapassara o convencional. Ainda era possível ouvir os trovões de raiva, mas agora estava um pouco mais calma. Sob a superfície vegetal, o líquido forma uma espécie de...

O Saxofonista

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         Eu nunca volto para casa pelo mesmo caminho por duas vezes seguidas. Não é essa nenhuma regra que eu tenha criado, ou ainda nenhuma espécie de vício adquirido. Quando percebo, as ruas não são as mesmas de ontem, e com uma grande parcela de certeza, não serão as mesmas de amanhã. Graças a isso, como a palma da minha mão, conheço todas as vielas e casarões dessa cidade onde afogo os anos finais da minha juventude.          Uma brisa rápida remove a fuligem dos meus pulmões, deixada por esse ar urbano de chaminés e escapamentos que assombram a todos com os fantasmas do petróleo. Hoje em dia o monóxido de carbono ainda assusta, mas já não sufoca tanto quanto antes. Talvez porque, como as árvores que crescem na calçada, é preciso ser persistente para sobreviver em meio à um mundo tão hostil. Lembro de quando cheguei aqui e de todos os sonhos que eu tinha e que tive de vender para conseguir o teto e os trocados que me salvariam de mo...