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Partes Obsoletas

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Não há nada que eu goste mais do que a possibilidade de dormir umas horinhas a mais numa manhã de domingo, apesar de que fazem anos desde a última vez que pude desfrutar desse privilégio dos preguiçosos. Em plena sete horas da manhã, me vejo em um embate de Jiu-jitsu com Bruce, o manhoso buldogue cinzento que parece estar desesperado para nossa caminhada matinal e seu encontro com uma oliveira que fica a três quadras de casa e que, por razões óbvias, apelidamos de “árvore do xixi”. Peço uma folga para meu grande amigo, que entende minha necessidade de espaço e sai disparado para pegar a coleira. Escovo os dentes com o aroma do café sendo preparado, preenchendo cada espaço da pequena kitnet. A quantidade certa de água, café e açúcar permanecem as mesmas de modo que o fim do processo coincida perfeitamente com o do meu ritual higiênico. Ovos, pão e requeijão são também programados para se conciliarem com a tarefa de vestir a roupa e calçar os tênis. Tudo pronto. Bruce decide deitar a...

Piedade e Ânsia

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Piedade tinha ânsia Ou talvez ânsia tivesse Piedade Já que na ressonância da cidade A saudade era distância Se a inconstância era verdade Ou uma maldade sem relevância A ânsia ainda era realidade E piedade era só concordância E a localidade dessa instância A ignorância era impossibilidade Era distância, era saudade Era infantilidade, mas não infância Piedade era só ânsia Sem ganância, com bondade Mas humildade sem importância Era ser sem relevância, Piedade A petulância  da idade A maturidade em substância E Piedade ainda com ânsia Na redundância da sobriedade Piedade e sua ânsia A ânsia de piedade E na realidade a concordância Traduzia-se: Ansiedade... - Neudson Nicasio

Aparelhos

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Não prometemos manter contato Em nossa última despedida Tinha de ser tão exato, Isso de cada um com a sua vida? Os amigos de aprendizados Que se reuniam com cartolina Hoje adultos apressados Pela pressa de uma rotina Parece que a gente não se conhece Sem uma farda e o rosto mais jovem Sim, há coisas que se esquece Mas coisas esquecidas não comovem Eu sei da vida de poucos Das faculdades que entraram Dos boatos que andam soltos Imaginando onde os outros pararam Mas ninguém me contou Há tempos não há conversa Só algo que a gente olhou Na rede social, só o que interessa Inclusive entro nessa conta Sem ser exemplo para acusar A ausência me desaponta Queria que só desapontasse, sem machucar Talvez pela dor da saudade Pela faísca de ter e mandar notícias Vejo vida na amizade Que vai além de suposições fictícias Mas é difícil ser presente Em meio a tanta correria Na facilidade de ausente Perde-se até o que não se queria Há ainda os amigos de agora Parceiros de outro momento Diferente dos de o...

Ácido Desoxirribonucleico (Ou Um Conto Sobre Ausência Paterna)

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  Eu nunca conheci meu pai. Não que eu nunca tenha o visto, na verdade, vejo-o com uma certa frequência. Conheço também o endereço de onde mora, de onde trabalha, a igreja para a qual vai orar e os lugares onde desonra todas as suas vivências religiosas. Ele também me conhece, não como filha, mas na concepção dele, como o pretexto que minha mãe quer usar para arrancar o suado dinheiro que ele ganha, com muita luta e sacrifício, fruto de um erro onde ele tinha uma parcela ínfima, quase inexistente de culpa. Reconheço o quanto minha mãe e a minha família materna se esforçou para tentar suprir a ausência paterna que, cedo ou tarde, iria surgir durante a minha vida. Tudo sempre deu incrivelmente certo e eu era uma criança feliz, até o dia em que a vida me colocou como uma menina de sete anos, na véspera da festinha de dia dos pais, tendo de explicar para meus colegas de turma por onde andava meu pai e as razões pelas quais ele não participaria da festa. - Eu não o conheço.- diss...

A Gota

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       É quase impossível relembrar os tempos da universidade sem que venha junto à memória as noites de chuva que nos isolavam no ambiente acadêmico. O prédio era razoavelmente afastado da cidade, além do que, naquele tempo dos humilhados esperançosos por exaltação, não havia ônibus e poucos alunos tinham uma condução decente para que pudessem chegar em casa sem tomar uma boa ducha de água de nuvem. O jeito era esperar o mal tempo passar.        Decidi sentar na varanda, sentindo os respingos trazidos pelo vento da tempestade. Coloquei a mochila sobre as pernas enquanto dirigia minha atenção para uma pequena gotícula de água que repousava sobre as folhas de uma orquídea violeta. Segura em um vaso, havia acumulado aquele pequeno líquido durante um momento onde a fúria da tormenta ultrapassara o convencional. Ainda era possível ouvir os trovões de raiva, mas agora estava um pouco mais calma. Sob a superfície vegetal, o líquido forma uma espécie de...

O Saxofonista

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         Eu nunca volto para casa pelo mesmo caminho por duas vezes seguidas. Não é essa nenhuma regra que eu tenha criado, ou ainda nenhuma espécie de vício adquirido. Quando percebo, as ruas não são as mesmas de ontem, e com uma grande parcela de certeza, não serão as mesmas de amanhã. Graças a isso, como a palma da minha mão, conheço todas as vielas e casarões dessa cidade onde afogo os anos finais da minha juventude.          Uma brisa rápida remove a fuligem dos meus pulmões, deixada por esse ar urbano de chaminés e escapamentos que assombram a todos com os fantasmas do petróleo. Hoje em dia o monóxido de carbono ainda assusta, mas já não sufoca tanto quanto antes. Talvez porque, como as árvores que crescem na calçada, é preciso ser persistente para sobreviver em meio à um mundo tão hostil. Lembro de quando cheguei aqui e de todos os sonhos que eu tinha e que tive de vender para conseguir o teto e os trocados que me salvariam de mo...