Aparelhos



Não prometemos manter contato
Em nossa última despedida
Tinha de ser tão exato,
Isso de cada um com a sua vida?

Os amigos de aprendizados
Que se reuniam com cartolina
Hoje adultos apressados
Pela pressa de uma rotina

Parece que a gente não se conhece
Sem uma farda e o rosto mais jovem
Sim, há coisas que se esquece
Mas coisas esquecidas não comovem

Eu sei da vida de poucos
Das faculdades que entraram
Dos boatos que andam soltos
Imaginando onde os outros pararam

Mas ninguém me contou
Há tempos não há conversa
Só algo que a gente olhou
Na rede social, só o que interessa

Inclusive entro nessa conta
Sem ser exemplo para acusar
A ausência me desaponta
Queria que só desapontasse, sem machucar

Talvez pela dor da saudade
Pela faísca de ter e mandar notícias
Vejo vida na amizade
Que vai além de suposições fictícias

Mas é difícil ser presente
Em meio a tanta correria
Na facilidade de ausente
Perde-se até o que não se queria

Há ainda os amigos de agora
Parceiros de outro momento
Diferente dos de outrora
Em casos, até no pensamento

E quanto a velha guarda,
Que viveu altas emoções?
O que o tempo nos aguarda,
Nós que estamos em tantas direções?

As vezes, rememorando
As nossas histórias de turma
Vem uma vontade gritando
Para fazer algo antes que eu durma

Então fiz um poema
Enquanto supero a vergonha
De enfrentar o problema
Dessa covardia medonha

De dizer “há quanto tempo”
De relembrar o passado
Vislumbrar um presente limpo
Para um futuro planejado

Os contatos continuam na lista
Os endereços são conhecidos
A rede social logada é uma conquista
Falta reencontrar os “desaparecidos”

Vemos agora o tempo a passar
Como é complicado ir embora
Como é estranho ficar
Como é difícil recuperar a menor hora

Façam o que for possível
Esse é o melhor dos conselhos
Sinto que nossa amizade é incrível
Mas ela tem respirado por aparelhos…


Neudson Nicasio

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