Ácido Desoxirribonucleico (Ou Um Conto Sobre Ausência Paterna)
Eu nunca conheci meu pai. Não que eu nunca tenha o visto, na verdade, vejo-o com uma certa frequência. Conheço também o endereço de onde mora, de onde trabalha, a igreja para a qual vai orar e os lugares onde desonra todas as suas vivências religiosas. Ele também me conhece, não como filha, mas na concepção dele, como o pretexto que minha mãe quer usar para arrancar o suado dinheiro que ele ganha, com muita luta e sacrifício, fruto de um erro onde ele tinha uma parcela ínfima, quase inexistente de culpa.
Reconheço o quanto minha mãe e a minha família materna se esforçou para tentar suprir a ausência paterna que, cedo ou tarde, iria surgir durante a minha vida. Tudo sempre deu incrivelmente certo e eu era uma criança feliz, até o dia em que a vida me colocou como uma menina de sete anos, na véspera da festinha de dia dos pais, tendo de explicar para meus colegas de turma por onde andava meu pai e as razões pelas quais ele não participaria da festa.
- Eu não o conheço.- disse.
- E quando ele vem ver você? - perguntavam.
- Vou perguntar para minha mãe, aí conto para vocês! - devolvia encerrando o assunto.
Minha mãe era sincera. Sabia que quaisquer conto de fadas que me contasse a respeito do meu pai era o mesmo que construir um castelo de cartas de baralho, quanto maior fosse, mas frágil seria sua estrutura e mais trágica a queda. A sua maneira ela contou-me toda a situação, e quando completei dez anos, finalmente o conheci.
Era o começo das férias de julho. Meus tios e primos vieram passar a temporada conosco e essa reunião de família acabou tornando-se uma justificativa mais que adequada para um passeio na praia. Casa lotada, carro lotado, e a praia mais lotada ainda. Esse era um dos raros momentos em que eu era imune contra todo e qualquer vestígio de carência paterna, totalmente transbordada por um sentimento de completude e satisfação. Mal havíamos chegado, notei uma rápida alteração no humor da minha mãe, que logo insistiu para que fossemos para algum lugar mais longe do ponto onde planejavam ficar. Todos à minha exceção concordaram sem levantar quaisquer questionamento. Confusa, revisitei os ângulos evitados pelos olhares da minha mãe até me deparar com uma outra família que também nos encarava: um homem cuja fisionomia me era bem familiar, ainda que eu nunca o tivesse visto na vida, sua esposa e seus dois filhos que deveriam ter quatro e cinco anos.
- Quem são aqueles mãe? - perguntei.
- Quando chegarmos em casa eu explico Monique. - respondeu minha mãe da forma mais evasiva possível - olha ali é ótimo e ainda fica perto de uma barraca, vamos lá!
Todos fincaram os guardas-sóis na praia e começaram os preparativos para aproveitar o dia. Lambuzada de protetor e ainda assim vermelha igual um camarão, sentei-me à areia em uma distância que as ondas do mar me tocavam a palma dos pés. Fitei o horizonte navegando em um oceano de emoções e sentimentos confusos e voláteis ao perceber que aquela figura sabia quem eu era, ou o que poderia ser, e ainda assim, da criação dos dois filhos, tudo o que restava a mim era apenas um olhar de desprezo e de um problema que vinha atormentá-lo em tão boa atmosfera. Apesar disso, comecei a cultivar em meu coração uma semente de esperança de que, se eu me esforçasse bastante, conseguiria convencê-lo que também era digna de sua atenção e do seu amor. Eu não sabia na época, mas se houvesse um prêmio para as atitudes mais burras da história da humanidade, eu seria premiada com louvor, porque depois desse dia de praia, tudo seguiu ladeira abaixo.
Escondida da minha mãe, tentei inúmeras vezes entrar em contato com ele por telefone. Fui xingada pela minha aspas madrasta aspas, avó paterna, e certamente por outros parentes a qual não tive a oportunidade de dialogar mas que ouviram boas referências à meu respeito. Quando finalmente soube que ele havia recebido alguma mensagem minha, não tive tempo para comemorar, o resultado foi o mais negativo de todos.
- Pede para essa menina parar de me perturbar! - gritou ele enquanto discutia com minha mãe na sala de estar - Fica dizendo que é minha filha, todo dia lá em casa é uma discussão sem fim por causa dessa história, se continuar assim, eu vou levar para a justiça!
- Você sabe que não vai levar a esse ponto - devolveu minha mãe - ela é filha sua. Por mais que eu quisesse um pai melhor que você para ela, ela é sim filha sua! Você não é homem para isso porque se fosse, saberia que está errado!
- O recado está dado! - disse por fim - a última coisa que eu quero é ficar dando meu dinheiro para duas aproveitadoras ficarem gastando a toa no mundo. Não dou um centavo do meu bolso, nem o meu nome para vocês se passarem por gente honesta.
- Escuta aqui, tenha respeito pelo meu nome e o nome dela, entendeu!? - disse minha mãe irada.
- E se ela por acaso desse a sorte de ter o meu sangue, a culpa ia ser toda sua, que fica se deitando com qualquer um sem tomar cuidado. A minha sorte foi não ter pego nenhuma doença...
- Sai daqui!!! - invadi a sala gritando.
Todos ficaram surpresos e cessaram temporariamente a discussão, com as veias saltando do pescoço e os rostos avermelhados de raiva.
- Para de ofender a minha mãe e sai daqui agora! - bradei novamente.
Ele não quis retrucar, só reforçou que o aviso estava dado e saiu certo de que todo aquele estrago iria resolver as coisas.
O que veio a seguir foi uma bronca daquelas, minha mãe estava certa em dizer que eu não tinha o menor direito de ter feito isso sem ter antes a consultado. O desapontamento materno foi o que me levou a encontrar um lençol freático no fundo do poço que eu sempre estive por conta da ausência paterna. A vergonha por tamanha rebeldia e irresponsabilidade acabaram bloqueando muitas das memórias exatas que tenho desse período, mas acredito que o que necessita ser dito é que nos dias que se seguiram ao escândalo, os ânimos esfriaram, as pazes foram feitas e tudo deveria voltar a ser como antes, exceto pelo gosto de sujeira empurrada para debaixo do tapete.
Três meses depois, um oficial de justiça bateu na porta de casa, dessa vez com uma intimação para que fosse realizado um exame de DNA para verificar se eu realmente era filha do meu pai. Minha mãe recebeu de bom grado, e após se despedir do oficial, olhou-me com uma expressão satisfeita:
- Agora ele vai ver! - disse ela - meu único arrependimento foi ter sido uma besta por todos esses anos de nunca ter colocado ele na parede!
No dia marcado, nos encontramos no laboratório indicado para a coleta do material, na reunião de família mais constrangedora dos últimos tempos. De um lado, meu pai, a esposa dele, a minha avó paterna e um tio que eu acabara de conhecer. Do outro, apenas eu e a minha mãe.
- Espero que tudo isso acabe logo - comentou minha avó - eu vou fazer questão de esfregar o resultado na cara dessa daí, que nunca valeu nada...
- A senhora respeite a minha mãe! - argumentei revoltada.
- Bem se vê que só ela sendo assim para ter uma filha tão malcriada e respondona...
- E barraqueira também! - comentou a esposa do meu pai.
- E se continuarem assim vão ver a parte violenta também! - devolvi.
Meu pai e meu tio continuavam alheios a tudo isso, discutindo algo importante, enquanto os demais trocavam farpas cada vez mais afiadas, que não cessaram nem mesmo quando a enfermeira me conduziu até a sala de coleta de sangue. Sentada na cadeira e sentindo a dor da agulha perfurando o meu corpo, encontrei-me nervosa e atônita. Por mais que eu tivesse a ampla certeza de que o resultado seria positivo e que o sangue que corria nas minhas veias era infelizmente tão vermelho quanto as que corria nas veias e artérias daquele homem, via a encenação da metáfora que a minha vida havia se tornado: meu coração havia se machucado, sangrado e agora seria posto à prova para confirmar um sentimento que já conhecia bem.
Após as duas coletas, a enfermeira responsável disse que estávamos liberados e que o resultado viria no prazo de 20 dias. Senti uma leve queda de pressão e um pouco de tontura, que para a minha avó nada mais era do que uma possível gravidez, concluindo que terminaria colocando mais aquela aspas criatura aspas nas contas do meu pai. Minha mãe e eu não demos ao trabalho de responder, apenas seguimos viagem.
Em casa, a pedida foi duas pizzas tamanho família de calabresa e frango com catupiri, para acompanhar e consolar nossos corações pela dieta fracassada, uma vitamina de banana com leite e achocolatado. Tudo isso e uma sessão de filmes de comédia romântica, ao melhor estilo festa do pijama, apenas eu e minha mãe, como sempre tinha sido, em um momento que há muito tempo não tínhamos.
Quando o resultado do exame chegou, me senti atingida por um soco no estômago que me tirou o ar e o equilíbrio. De uma certa forma, fui rendida à um nocaute total: deu negativo.
Minha mãe tentou entrar na justiça para que o exame fosse refeito, mas até então nossas reservas mal supriam nossa necessidade em casa, quanto mais pagar um advogado em uma causa assim. Ao ver toda a revolta e angustia da minha mãe, soube de de alguma forma ela dizia a verdade, e que apostaria a própria alma nessa alegação. Pensei comigo mesmo que talvez ela não soubesse, que tivesse sido induzida ao equívoco por simplesmente ser o mais lógico. Respirei fundo e pedi à minha mãe para que desistisse da ideia de combate. De uma certa forma, aquele resultado tinha rompido o último fio do laço que eu poderia ter com aquele homem. Se antes as coisas estavam suspensas em uma névoa de incertezas, agora se desfazia em uma violenta tempestade de verdades. Ele não era meu pai e nem eu a sua filha, e por mais que a verdade doesse no fundo do meu coração, ela havia me libertado para o resto da vida.
Os dias se passaram, alguns eram maravilhosos e felizes, onde a tristeza repentina me assolava apenas por poucos segundos e seguiam viagem, já outros, mais pareciam fazer parte de alguma culinária exótica, dada a quantidade de aspas sapos aspas que eu tinha de engolir por parte da minha família paterna. Independente das ofensas, do olhar de desdem e dos comentários infames, aquela dor já havia sido superada e convertida apenas em um leve aborrecimento, e uma pequena satisfação quando minha paciência estourava e eu mandava irem plantar batatas. Era engraçado descobrir que eu ainda podia ser a decepção e o desgosto da família mesmo sem que fizesse parte dela. Como diria o poeta, vivendo e aprendendo...
Minha vida seguiu tão normal quanto a vida de qualquer outra pessoa. Estudei, me formei, arranjei um emprego capaz de sugar até a última das minhas energias. Exausta e apaixonada por enfermagem, essa era eu aos vinte e cinco anos.
Se um dia alguém fizer uma dessas séries de hospitais baseada na minha vida, estou certa que o plantão de uma certa madrugada seria o episódio de maior audiência: tudo começou com um assalto à banco na cidade, dois bandidos feridos em uma troca de tiros com a polícia e um preso na delegacia. Não preciso falar a loucura que ficou o hospital com tantos curiosos e pacientes. De repente, um policial a paisana começou a ter uma leve crise de pressão alta e necessitou ser medicado. Enquanto eu preparava o medicamento intravenoso, percebi que meus colegas de enfermaria foram chamados para outro setor.
- Monique - disse um deles - segura as pontas aí que a gente já volta!
- É bom trazerem um café forte e sem açúcar nessa volta de vocês! -completei sorrindo.
Depois de um tempo, o policial parecia melhor, mas ainda assim recomendei a ele que aproveitasse para descansar naqueles poucos minutos. Às três da manhã, o relógio me fitava dizendo que aquela ainda seria uma noite longa, e não precisou de cinco minutos para me explicar o porquê:
- Socorro, ele precisa de ajuda! - entrou a esposa do meu pai, segurando-o quase inconsciente.
- O que ele tem? - perguntei antes que o meu pessoal se colocasse ante meu profissional.
- Ele teve um ferimento de cirurgia que reabriu, está perdendo muito sangue!
Tentei estancar o sangramento e pedi que chamassem o médico depressa. A compressa deu certo, mas na primeira menção de respirar aliviada, pude perceber que o mesmo estava pálido e que todo o seu percurso estava marcado por um longo rastro de sangue.
- Meu filho!!! - entrou a avó paterna gritando - Moça por favor, ajuda meu filho!
Percebi que, por conta da máscara, nenhuma das duas havia me reconhecido, o que teria dado certo, não fosse minha tentativa de acalmar a senhora ter revelado minha identidade.
- Você?! - exclamou incrédula minha avó - você que fez isso com ele, não foi?! Você vai acabar matando meu filho!
- A senhora está louca? - exclamei - se não fosse eu ele já estaria morto, olha só a situação que ele chegou aqui!
Felizmente o médico chegou com uma equipe e ele foi removido imediatamente para a sala de cirurgia. As duas decidiram que por hora, seria melhor acompanhá-lo, mas deixaram expressamente claro de que o acerto de contas ainda não havia acabado. Com o jaleco e as luvas encharcados de sangue coagulado, comecei a chorar. Foi quando o policial, ainda debilitado, questionou a razão de tal acontecimento. Entre os prantos de uma raiva e revolta, narrei tudo o que tinha acontecido, e de como eu havia tentado continuar depois de tanto caos. O paciente tornou-se médico, ou pelo menos psicólogo, em tentar me convencer de que eu era uma boa pessoa.
Eram cinco da manhã. Pela vidraça da sala, observava a luz do nascente acordar os pássaros e o azul cada vez mais claro do céu. De roupa trocada e rosto lavado, ainda esperava o café solicitado na vã esperança de que aquecesse meu coração. Mas o que veio poucos minutos, não foi tranquilidade, mas sim o médico acompanhado dos dois furacões:
- Monique - começou ele - a gente está com um problema sério. O senhor que acabou de dar entrada está precisando de uma transfusão urgente de sangue, e para piorar a gente está sem o estoque de sangue O- no banco do município. Você não conhece alguém que tenha esse tipo sanguíneo? Tentamos com os parentes, mas nenhum deles tem o sangue compatível.
- Sim, eu e a minha mãe - respondi - mas isso é estranho, no exame de DNA que foi feito, tipo sanguíneo dele é AB positivo.
- Deve ter sido algum engano. -disse ele - acabamos de fazer o teste e ver na ficha dele, o sangue é realmente O-.
Notei que minha avó e a esposa do meu pai adotaram uma postura mais esquiva, mas tudo o que vinha em minha cabeça era a ira de ter passado com a minha mãe tanta coisa que não merecíamos. Tudo o que eu queria era usar o álcool hospitalar para incendiar tudo ali da mesma forma que o ódio, como o fogo, me consumia.
- Monique? - perguntou o médico - está tudo bem?
Fiz que aspas sim aspas com a cabeça, mas ainda não tinha conseguido formular qualquer outra frase além dessa:
- Vocês falsificaram a porcaria do exame de DNA caramba?! - gritei em voz alta.
- Eles devem ter errado em alguma coisa! - devolveu minha avó. - Mas agora que você sabe que é filha dele, então honra o teu pai e vai logo ajudar ele, para desfazer a besteira que você fez!
- Eles erraram? Não tem como cometer um erro desse tipo em um exame, eu vi eles coletando o material, era um laboratório importante, não tinha como errar! Eu vou pedir uma investigação e...
- Chega! - intrometeu-se a esposa - a gente falsificou, tá bem! A gente pagou para alterarem os exames porque ele nunca ia e nem vai te aceitar como filha, porque nunca que meus filhos iam dividir com uma estranha o que é deles por direito. Acha que alguma coisa que fizer vai mudar isso? E outra, aqui você é uma funcionária e tem que fazer o que tá sendo mandada para fazer, então anda logo que enquanto você está aí tendo esse ataque de frescura, de mimadinha, meu marido está morrendo ali naquela cama!
- Pois ele que vá pro inferno! - devolvi ainda nervosa.
O momento estava tenso, e só piorou quando perceberam que tal declaração havia sido mencionada diante de um médico e de policiais que visitavam o amigo medicado. Pela seriedade do caso, as duas acabaram sendo enviadas para a delegacia para prestar esclarecimentos, enquanto que eu permanecia no meu posto, sendo designada pelo médico como a única acompanhante para o meu pai.
No corredor, minha cabeça girava como se houvesse sido capturada na órbita de uma ideia densa. Respirei fundo, tentando expulsar aquela angústia e me apegar ao alívio em saber que, tanto eu quanto minha mãe, ambas injustiçadas, estávamos certas. Ainda estava com lágrimas nos olhos quando o médico se aproximou:
- Está tudo bem Monique? - perguntou ele.
- Sim, sim - respondi - vai melhorar.
- Olha, eu sei que a situação não é das mais simples, e deu para perceber que tem sim bastante coisa envolvida nesse caso e que deve ser bem complicado para você. No entanto, quando estamos aqui, a nossa missão é salvar vidas, não importa de quem. Quando passam da porta são todos pacientes, e os pacientes merecem cuidados. Você pode salvar a vida desse homem agora e tornar tudo mais simples. Talvez ele não resista até encontrarmos outra alternativa viável...
Pensei comigo mesmo em tudo o que tinha vivido, e no quão duro foi receber tantos ataques. Talvez devesse me negar, talvez devesse dar uma razão mais que justa para que me tratassem com todo o desprezo que sempre me trataram. Mas essa não era eu. Não foi a mulher que a minha mãe criou, educou e lutou tanto para formar, e uma atitude assim, embora ela pudesse compreender, não seria o suficiente para o seu orgulho - você é melhor que isso Monique! - soava na minha mente.
-Tudo bem doutor - devolvi - eu vou doar o sangue.
Eram oito da manhã quando, de curativo no braço e um pouco tonta, observava pela vidraça do leito o homem a quem eu tinha acabado de salvar a vida. Era irônico saber que aquele que tanto me havia renegado sob o pretexto de não ter o mesmo sangue, necessitaria dele para continuar vivo. O policial que eu havia atendido mais cedo aproximou-se para se despedir e me atualizar do caso das megeras, ao que parece elas estariam bem encrencadas, uma vez que deram a pista que a polícia precisava para desmanchar um esquema de corrupção nesse laboratório onde eu havia feito o teste. Me deu também o cartão de uma advogada e disse que era causa mais que ganha. Agradeci e coloquei o cartão no bolso do jaleco. Não me senti vingada, mas plena porque no fim das contas, tudo foi esclarecido. Minha cabeça ainda quis formular algum raciocínio sobre castigo divino, mas tudo o que aconteceu naquela madrugada acabou se convertendo em informação demais, e eu já havia ultrapassado duas horas do meu plantão, estava um caco.
Enquanto saía descabelada e com olheiras horríveis pela porta da recepção, um dos meus colegas me parou.
- Do jeitinho que você pediu! - disse-me entregando o copo de café.
- Obrigada! -Agradeci.
Do lado de fora, a luz do sol da manhã parecia ter despertado uma nova Monique, apesar da aparência externa não evidenciar nada além de uma necessidade urgente de um bom banho e cama. As pessoas culpadas iriam responder pelos seus erros, as humilhadas seriam exaltadas e com certeza o meu pai continuaria torcendo o nariz para uma verdade absoluta que ele seria incapaz de aceitar. Mas assim é a vida, nem sempre ela segue o roteiro para um final feliz de cinema, contudo, tudo aquilo o que a gente cultiva parece de alguma forma, retornar para nós ou para quem nós amamos e que mesmo assim, há gente que não muda nunca. Um gole de café me fez perceber que a minha família paterna sempre me veria com maus olhos e que jamais eu seria aceita, colocando-se em um altar de perfeição e decência em um vitral de hipocrisia. Girei o copo e dei outro gole. Com tudo o que a vida me ensinou e se a minha meta de vida fosse tentar agradar aquele povo, a melhor coisa que eu poderia estar fazendo era continuar sendo a decepção da família do meu pai: talentosa, bem-sucedida e honesta.
Voltava a pés para casa quando o café chegou ao fim. Arremessei o copo em uma lixeira do outro lado da rua. Ao acertar, cheguei na minha máxima conclusão do episódio, do dia e consequentemente da minha vida:
- Ah Monique, você é demais!
- Neudson Nicasio

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